VERDADE: é preciso superar o “publish or perish” e salvar a ciência

A literatura científica não tem uma data exata para o surgimento da expressão “publish or perish” (“publique ou pereça”), mas é fato que essa espécie de mantra, responsável por conduzir as atividades de pesquisadores do mundo todo há mais de um século, começa a ser questionada. Afinal, esse mandamento – seguido à risca ainda por muitos cientistas – precisa urgentemente ser reavaliado.

O aumento significativo de publicações que colocam na berlinda a expressão “publish or perish” revela também um lado nebuloso do universo da ciência. Por trás da ideia de que um cientista não é produtivo sem a publicação de artigos em periódicos, ou seja, que sua carreira não seguirá adiante e nem terá relevância, esconde-se uma espécie de “calcanhar de Aquiles” da ciência. 

Explica-se: o “publish or perish” coloca em xeque a própria credibilidade da ciência. Afinal, para atender a um status quo estabelecido há décadas para trilhar uma trajetória de sucesso, a pressão por publicações colocou em pauta a ética na pesquisa, o surgimento de artigos com relevância questionável, a reordenação de recursos destinados a esses estudos para garantir a presença em publicações e um boom das popularmente chamadas “revistas e editoras predatórias” (que são aquelas de qualidade duvidosa e que cobram caro para publicar artigos).

Todo esse cenário preocupante em torno das rotinas dos cientistas também pede um olhar sensível sobre a qualidade de vida e saúde mental desses profissionais.

Os debates em torno do “publish or perish” suscitam uma autocrítica necessária sobre as dinâmicas da produção científica. Trata-se de um debate mundial. O estresse em torno da necessidade de divulgação faz com que muitos cientistas adotem alternativas pouco recomendadas.

Estresse por publicações prejudica cientistas

É fato que um levantamento realizado com pesquisadores biomédicos na Bélgica revelou que 15% deles admitiram ter fabricado, falsificado, plagiado ou manipulado dados. A maioria (72%) apontou a pressão da publicação como grande responsável pela má conduta.

É hora de um repensar sobre o “publish or perish”. Na prática, como apontam alguns especialistas, a publicação científica deixa de ser uma consequência natural da pesquisa para se tornar um fim em si mesmo. Isso, de forma mais direta, significa deixar de avaliar a ciência em si para valorizar simplesmente apenas o número de artigos e seus indicadores associados.

Na contramão do “publish or perish”, para fugir do risco de estagnação da ciência, uma das possibilidades é medir o potencial de inovação da pesquisa, ou seja, o que ela traz de novidade em relação ao que vem sendo feito. Isso implica, por exemplo, na busca de novos indicadores e na possibilidade de avaliação desses trabalhos.

Medir impacto deve ser a palavra de ordem para gerar mudanças profundas nas rotinas dos cientistas e pesquisadores. Afinal, no que o trabalho realizado ajuda no progresso da ciência e no desenvolvimento da sociedade?

Fica a reflexão!

Fonte: APUB

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