Participação política dos Evangélicos e Democracia é tema de encontro

A comunidade evangélica representa hoje cerca de 25% da população brasileira, segundo o IBGE, reunido as diversas vertentes inclusas nas categorias históricos, pentecostais e neopentecostais. O dado explicita o peso social que este grupo representa, ficando claro porquê é preciso discutir a questão política “Evangélicos e Democracia”, tema do evento organizado pela Apub e um conjunto de docentes da UFBA, no dia 18 de agosto, na sede do Sindicato.

A comum associação de evangélicos a ideias conservadoras se fundamenta a partir das posturas e proposições de ditos representantes da comunidade, conhecidos nacionalmente, e que, nos últimos anos, ganharam projeção com a bancada que agrega cerca de 90 parlamentares no Congresso Nacional. Porém, historicamente, não há um consenso conservador dentro da própria comunidade, é o que colocou Elizete da Silva, historiadora e professora do departamento de Ciências Humanas e Filosofia da UEFS e aposentada da UFBA.

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A expositora fez um retrospecto da participação política de lideranças e congregações evangélicas no Brasil, enfatizando o posicionamento progressista, principalmente em momentos que marcaram a história política brasileira. Segundo relatou, na década de 1930, foi criada a Confederação Evangélica do Brasil, organização que marca a abertura das Igrejas para questão da responsabilidade social e para o socialismo cristão; mais tarde, na década de 1950, surge uma linha progressista e ecumênica, como a Comissão Igreja e Sociedade, grupo que busca o engajamento social, a partir da reflexão sobre a realidade brasileira e do envolvimento nas questões políticas do país. No período, foram organizadas conferências nacionais, tendo como destaque o encontro “Cristo e o processo revolucionário brasileiro”, tema que causou grande polêmica e criticava a posição ortodoxa e fundamentalista que apartavam a Igreja dos problemas sociais. Naquele momento, houve grande interlocução com intelectuais e militantes influentes, como Gilberto Freire e Florestan Fernandes. Já no período da Ditadura Militar, a professora explicitou a polarização entre conservadores que apoiaram o regime, como os batistas, e os mais progressistas, como o setor Igreja e Sociedade, contrários ao golpe militar. Em 1972, a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), fundada por Igrejas Cristãs Evangélicas, surge como um marco na defesa dos direitos no país e escreve a primeira cartilha de Direitos Humanos no Brasil. Ainda, a professora lembrou de outras iniciativas, tais como o apoio ao Projeto Brasil Nunca Mais contra a ditadura e aos comitês de direitos humanos e pela Anistia.

A mediação da mesa foi realizada pelo pastor Djalma, presidente do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviços Cristão (CEPESC) e também presidente da Comunidade Inter-religiosa Antioquia, um dos articuladores da atividade. Em seguida à exposição, o professor da Universidade Estadual da Bahia e pastor protestante, Jorge Nery participou como debatedor e enfatizou a importância do posicionamento desses setores progressistas em defesa de uma Democracia popular e de uma transformação social nesta conjuntura atual em que cresce o fundamentalismo com ideias homofóbicas, heteronormativas, machistas e politicamente retrógradas. Para ele, a bancada conservadora não representa todos os setores, mas ressalta que o aparato midiático, o poder econômico e a entrada e capilarização das Igrejas nos bairros periféricos e nas comunidades rurais jogam a favor da cristalização dessas ideias na base evangélica. Segundo ele, hoje, a Igreja chega onde outros setores, como a militância de esquerda, não chega.

Elder Verçosa, procurador do Estado da Bahia, também participou como debater e ressaltou a importância de reunir as pessoas incomodadas com esta generalização em torno dos evangélicos; segundo ele, para romper com isso, é preciso que haja posicionamento dos que não se identificam com esta etiqueta e resgate do espírito de solidariedade, do trabalho social e do combate às injustiças.

No debate, o professor Joviniano Neto (FFCH/Aposentado) lembrou a atuação de representantes das Igrejas evangélicas na resistência à ditadura miliar, registrada no relatório da Comissão Estadual da Verdade; destacou o professor Celso Dourado, Djalma Torres e o jornalista Agostinho Muniz, os dois últimos presentes. Enfatizou a importância da organização de frentes democráticas, nas quais, as igrejas têm relevante papel falando às consciências a partir da ética e do compromisso. A diretora da Apub, Raquel Nery, ressaltou a identidade entre a proposta do Evangelho de Justiça e Paz com a pauta dos Direitos Humanos e a importância de comunicar a dimensão libertadora do evangelho, inclusive nos movimentos sociais, com honestidade intelectual. Dentre as demais participações, destaca-se também a colocação sobre o enfrentamento ao racismo, inclusive dentro das igrejas; e a necessária mobilização da base evangélica, composta em grande parte pela população negra e pobre, contra a perda de direitos em curso.

 

 

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