Faculdade de Economia da UFBA debate deveres de verdade e justiça sobre a Ditadura Militar brasileira

Na última sexta-feira, 12 de abril, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Economia da UFBA (DAECO/UFBA) realizou um debate e ato sobre o Regime Militar brasileiro e os deveres de memória, verdade e justiça. O evento contou com o apoio da Apub e Assufba, além do Diretório Central dos Estudantes da UFBA. A atividade foi motivada após uma tentativa de exibição de um filme de conteúdo inverídico sobre a Ditadura Militar (veja nota).

Emanuel Lins Freire (Apub e Direito/UFBA), Penildon Silva Filho (Prograd/UFBA) e Henrique Tomé Mata (Diretor da Faculdade de Economia)

O professor Emanuel Lins Freire, vice-presidente da Apub, participou da mesa de abertura e destacou que o Brasil cumpriu de forma insuficiente seus deveres de memória consciente em relação ao golpe de 1964, bem como em relação à escravidão. ” A ausência de tratar do tema como pauta central tem sido o principal agente de revisionismo histórico”, disse. Apontou também que existem interesses econômicos no revisionismo, a partir de mudanças nos livros didáticos, por exemplo, haveria um mercado editorial que lucraria com isso. Também estiveram à mesa o diretor da Faculdade de Economia, professor Henrique Tomé da Costa Mata, que falou sobre seu entendimento a respeito do golpe, como cidadão estrangeiro e da necessidade de reflexão; o professor Penildon Silva Filho, pró-reitor de graduação, representando o reitor João Carlos Salles, falou sobre a universidade como espaço do debate e pluralidade de ideias bem como da necessidade de resgate do patrimônio democrático brasileiro; o dirigente do DCE/UFBA, Gustavo Teixeira afirmou ser preciso defender a universidade e pensar um projeto de país, além de fazer o convite para atividades preparatórias do Congresso estudantil da UFBA que será em setembro; e a estudante Alice representou o DAECO e falou sobre a importância da resistência ao antiacademicismo e anti-cientificismo e do respeito aos que morreram defendendo a democracia.

Professor Carlos Zacarias (FFCH/UFBA) faz sua exposição

Houve exposição dos professores Joviniano Neto, diretor da Apub e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, e Carlos Zacarias historiador do Departamento de História da FFCH. Zacarias iniciou deixando claro que o filme alvo do repúdio da comunidade da faculdade ia além do revisionismo, tratando-se de uma verdadeira falsificação dos fatos históricos. Apontou que o debate sobre a memória da ditadura foi quase “varrido para baixo do tapete” e mesmo após a instalação da Comissão da Verdade, ele não teve caráter de justiça. ” A Comissão da Verdade ficou restrita à memória. Não puniu torturadores. Não foram capazes de construir um monumento ou homenagear mortos nem reparar as vítimas”, disse. Trouxe também algumas discussões que existem na academia sobre o processo do golpe, destacando que “nenhum historiador encontrou elementos para sustentar que em 64 a democracia estava ameaçada pela esquerda”. Toda a luta armada foi posterior à instalação do golpe. “Não tivemos uma guerra civil no Brasil, houve um massacre. Todas as organizações de luta armada foram extintas até 1974”. Para ele, a sociedade brasileira incorporou uma visão equivocada de que era possível fazer uma conciliação a partir da Anistia: “Não é possível conciliar com quem promove ditadura e rompe com a legalidade”.

Joviniano Neto (Apub e Grupo Tortura Nunca Mais)

Joviniano Neto abordou o golpe a partir do que ele chamou de excepcionalidade brasileira, significando que, mesmo com a ruptura da legalidade, houve a manutenção de um verniz de que tudo ocorria dentro das instituições do país. “Todos os generais-presidentes foram eleitos; o judiciário foi mantido, mas os crimes políticos foram transferidos para a justiça militar”, exemplificou. Falando como presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, ressaltou que o fato de não ter havido punições para os torturadores naturalizou este ato que continua ocorrendo no país. “O Grupo Tortura não se chama assim só para lembrar do passado”, disse. Afirmou ainda que os militares jamais reconheceram publicamente os erros cometidos e que a sociedade não foi totalmente incluída no debate sobre a Ditadura. “Isso permitiu a permanecia dessa a versões comemorativas. Incluir a verdade histórica na memória de toda a população. Esse é o desafio agora”. (Leia aqui a íntegra da exposição)


Diva Santana (Grupo Tortura Nunca Mais) homenageia Vandick Pereira Coqueiro, militante contra a Ditadura Militar desaparecido na Guerrilha do Araguaia

Ao final das exposições, Diva Santana, dirigente do Grupo Tortura Nunca Mais homenageou seu cunhado e estudante da Faculdade de Economia Vandick Pereira Coqueiro, militante e desaparecido político na Guerrilha do Araguaia. Em seguida, professores que foram presos e perseguidos durante a ditadura também deram seus depoimentos.

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