Distorções no ensino superior colocam em xeque o futuro do país

Cada vez mais mergulhado em escândalos e à deriva, o Ministério da Educação (MEC) reflete a realidade da educação brasileira neste momento: sucateamento, distorções e uma política questionável do Governo Federal em todos os níveis de ensino.

O capítulo mais recente, o pedido de demissão do ministro Milton Ribeiro por conta de uma denúncia de privilégio no repasse de verbas da pasta, de acordo com a solicitação de um pastor evangélico com o aval do presidente Jair Bolsonaro, traz à luz a fragilidade com que o MEC conduz hoje as políticas educacionais no país. Não à toa, velhos problemas se agravam e o futuro é cada vez mais incerto.

Quanto ao ensino superior, dificuldades percebidas, sobretudo na área de Ciências Exatas, impactam diretamente na formação das novas gerações. Explica-se: de acordo com o Censo da Educação Superior 2019, a alta taxa de abandono do curso de Física, por exemplo, reflete no baixo índice de professores formados.

Na prática, 75% das pessoas que começam essa graduação não finalizam. Situações semelhantes ocorrem em áreas como Química e Matemática. Por conta dessa realidade, faltam professores especializados para atuação na educação básica.

Tal situação acaba por criar um ciclo vicioso, uma vez que, na ausência de educadores realmente capazes de formar crianças e adolescentes nesses segmentos, se reduz também as chances para a descoberta de potenciais talentos nesses ramos.

Vale lembrar que, de acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2021, um terço das turmas do ensino médio tiveram aulas de Química, em 2020, com professores não especializados.

Tudo isso desmotiva estudantes que poderiam seguir nessas áreas do conhecimento, mas optam por outras com as quais, muitas vezes, nem têm tanta afinidade.

E há um componente mercadológico nisso tudo: são profissões consideradas pouco valorizadas pelo mercado, ainda mais em um país onde as elites se acostumaram a importar conhecimento e tecnologia de outros países, em vez de investir na formação por aqui mesmo.

Distorções indicam falta de prioridades e de planejamento

As distorções podem ser explicadas pela falta de prioridades e planejamento estratégico no ensino superior. Como os EUA formaram, em Astronomia, 820 profissionais no primeiro ano de pandemia? No Brasil, na mesma área, foram pouco mais de 100 em quase uma década.

Reparem que os Estados Unidos, responsáveis pela agência espacial mais famosa do mundo – a Nasa –, direcionam investimentos potentes para a tecnologia e a formação de cientistas. No Instituto Federal de Tecnologia da Suíça (ETH), em Zurique, estudantes realizam pesquisas aeroespaciais.

E o Brasil? O que espera de seus profissionais?

Os cortes constantes de verbas, sobretudo voltadas à pesquisa, revelam um descaso do Governo Federal com a qualificação científica.

Nem mesmo as respostas positivas de nossos cientistas durante a pandemia foram capazes de sensibilizar as autoridades para uma revisão de prioridades voltadas aos investimentos necessários nessas áreas.

Distorção privada

Há um abismo enorme da distribuição de áreas de formação entre o ensino superior público e o privado.

Na educação pública, o foco não é apenas a formação de mão de obra qualificada para o mercado, mas o preparo de cidadãos motivados a contribuir para o desenvolvimento econômico e social do país.

Já nas instituições privadas, o foco é, geralmente, despejar mão de obra na maior quantidade possível para suprir demandas do mercado, sem garantir, necessariamente, uma formação de qualidade. Por isso, nos últimos anos, os cursos à distância espalharam-se quase sem controle.

Enquanto o mercado carece de profissionais nos mais variados segmentos, há graduações que se proliferam pelo país.

A cada seis cursos de Administração, a graduação mais comum nas instituições privadas de ensino superior brasileiras, há um de Biologia. Em quantidade de formandos, ou seja, alunos que concluíram a graduação, Pedagogia e Direito lideram o ranking.

Essas discrepâncias sinalizam a falta de comprometimento com as políticas educacionais e os resultados, infelizmente, revelam um despreparo do país com áreas estratégicas.

O que fazer? O MEC não pode continuar à deriva. Está na hora de começarmos a virar o jogo!

Fonte: APUB

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