Artigo – O insustentável peso do nada

Por Peter Fischer, Professor da Universidade Federal de Goiás.

Mais uma Assembleia, mais uma vez a greve continua. Nada contra já que é o desejo da maioria. Também nada a favor já que é uma greve inútil, muito mais política do que reivindicatória, mas isto a história provará.

Uma Assembleia com lances surrealistas. À chegada os docentes foram recebidos por um pequeno agrupamento de alunos bastante barulhentos com tambores num ritmo mambembe. No chão, coladas folhas com trechos de Brecht, fora de contexto, maltratando o gênio usado como capacho. Mais tristes foram os cartazes cujos textos não vale repetir, agressivos, sem pontuação e sem responsabilidade. Alunos usados como massa de manobra numa tentativa de intimidação; alunos usados para transmitir os pensamentos de alguns muito covardes para mostrar o rosto.

A pauta da Assembleia previa a “avaliação” da proposta de Carreira protocolada fora do prazo. O primeiro absurdo foi a presença de um membro do Comando Nacional de Greve, também membro da Diretoria do Andes, para explicar a proposta que, segundo ele, foi o resultado de ampla discussão das bases. Se foi “amplamente” discutido por que explicá-lo? Talvez porque não fosse “tão amplamente” discutido…  E ainda esqueceu-se de avisar que o ANDES, em favor desta carreira, desistiria do aumento duramente conseguido pelo PROIFES.

Mais uma inovação desta Assembleia foi a inscrição para falar depois da explanação sobre a proposta. Quem quisesse inscrever-se colocava o nome num papel que seria colocado numa cumbuca e sorteado. Resultado: nove falaram a favor e um contra… a continuidade da greve.

Muito mais importante, para mim, foi um panfleto distribuído por uma jovem, que vinha com um pequeno texto de Brecht e outro, de autor desconhecido, que me fez pensar:

“Aos que virão depois de nós… Virão outros depois de nós? Quem vai querer ser professor de Universidade Federal?”

Eu gostaria de responder quem vai querer ser professor.

Se este grupo “andino” vencer o embate quererão ser professores todos aqueles nascidos para a burocracia em busca de carreiras burocráticas. Serão professores os que nada terão a ver com a produção do conhecimento porque serão “antiprodutivistas”. Serão professores empenhados a igualar todos os alunos “por baixo” já que tentar elevá-los seria criar a possibilidade de diferenciação intelectual, uma consequência odiosa num sistema igualitário.

Se o grupo do PROIFES vencer serão professores os que acreditam na evolução do conhecimento. Serão professores comprometidos com o trabalho de produzir conhecimento. Serão professores que, reconhecendo a diversidade humana, saberão encaminhar cada aluno na busca de uma realização completa e única. Serão professores que enfrentarão as avaliações do seu desempenho como justa retribuição à sua produção acadêmica já que acreditarão serem pagos para trabalhar com dignidade. Serão professores cuja visão do futuro discernirá horizontes novos para os quais os antigos só servirão de referência, evitando-se assim, a repetição de erros.

Entendo que o enfrentamento que se desenha nada tem a ver com esta greve, mas muito, muitíssimo, com a concepção da Universidade que queremos. Esta é a razão porque, eu, alerto aos mais jovens. Alerto encarecidamente a  não abrirem mãos de valores como diversidade, inconformidade e eterna curiosidade. Alerto para nunca trocarem suas dúvidas por dogmas.

Peter Fischer, Professor da Universidade Federal de Goiás.

Obs: O conteúdo deste artigo é de responsabilidade da autor.

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