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Ontem (11), em mais uma edição do Ciclo de debates, que a Apub realiza em preparação para seu I Congresso Docente e também para o XIV Encontro Nacional do PROIFES, o tema trazido à pauta foi a questão da interseccionalidade e movimentos sociais, em especial, o movimento sindical docente. Foram convidados para o debate o professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Cláudio André de Souza e a professora Edilza Sotero, da Faculdade de Educação da UFBA. A presidenta da Apub, Luciene Fernandes coordenou a mesa.

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Apontando alguns questionamentos que compõem a sua área de pesquisa – justamente a questão da democracia, movimentos sociais, representação e participação política – o professor Cláudio André chamou a atenção para a existência de projetos em disputa na sociedade e o papel estratégico dos movimentos nesse contexto: “Ao pensar os movimentos sociais de uma maneira geral, a gente vê que não dá para andar para trás”, disse. “A gente vive um cenário de novos atores que estão entrando em cena”. O professor destacou também que esses movimentos têm dinâmicas próprias que nem sempre são evidentes para o conjunto da sociedade. Para ele, muitas vezes, existe a impressão que a militância está desmobilizada, quando, na realidade, o que existe é a reorganização de um novo fluxo. Como exemplo, ele citou o movimento estudantil da UFBA que, em sua história, tem uma participação ativa na defesa da democracia, mas que, com o tempo, foi se voltando mais para questões internas da universidade: “houve um descolamento de repertório. O movimento deixa de estar em confronto aberto nas ruas (…) e passa, sobretudo a se mobilizar para dentro da universidade”. O professor acredita que o momento é de reordenação de projetos políticos “e a gente não pode deixar de considerar esse tripé de gênero, raça e sexualidades e suas interseccionalidades e, ao mesmo, tempo, a gente percebe que, no sistema político a gente não consegue alcançar a representatividade desses projetos”.

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A professora Edilza apresentou uma perspectiva histórica sobre o conceito de interseccionalidade e suas aplicações, especialmente como ferramenta metodológica para compreensão e análise da sociedade, considerando como múltiplas opressões se configuram. “O pensamento interseccional pode ser entendido dentro desses processos de produção e reprodução de desigualdades. O emprego desse conceito abre espaço para o desenvolvimento de perspectivas que atentem para múltiplas experiências pensando contextos específicos”. Para ela, o desafio que a interseccionalidade coloca é pensar certos contextos a partir de lugares diferentes e como categorias ou marcadores sociais que parecem universais – por exemplo, a categoria “mulher” – escondem desigualdades. Referindo-se ao ambiente acadêmico, a partir de dados que demonstravam que as mulheres eram a maioria das estudantes de pós-graduação, ela chamou a atenção para o fato que, ao se considerar o marcador “raça”, fica evidente que as mulheres negras estão excluídas desse espaço. E, são justamente as mulheres negras as principais responsáveis por conformar a ideia de interseccionalidade, no contexto do movimento feminista norte-americano. A professora citou o famoso discurso da ativista Sojourner Truth, “E eu não sou uma mulher?”, ainda no século XIX como um exemplo de crítica a um movimento que, embora pretendesse englobar todas as mulheres, tinha, na gênese de suas pautas, as necessidades das mulheres brancas de classe média. Outro exemplo trazido por Edilza foi de Claudia Jones, militante negra, feminista e comunista. Em sua atuação no partido comunista nos Estados Unidos e na Inglaterra, Jones defendia que a atenção às mulheres negras era essencial para o próprio sucesso e massificação das lutas, pois, muito além de serem simplesmente vítimas de opressões, elas, em sua resistência e atuação em suas comunidades, teriam valiosas contribuições ao próprio partido. Para a professora, esse questionamento é essencial para a compreensão do momento atual e para as possibilidades dos movimentos: “o sujeito da precariedade é apenas um sujeito que deve ser integrado dentro da bandeira de luta de um dos movimentos sociais ou ele pode ser entendido como um agente da transformação?”.